sexta-feira, 19 de junho de 2009

Poesia do recital - Shirley Pimentel de Souza

Anjos Negros

" As pragas devastadoras invadiram a Diaspora,
e embraqueçeram nossa cultura
tranformaram em avós e avôs
nossos iaias, ioios
Instituiram um "bem" branco,
um "mal" negro.
uma "paz" branca,
um "luto" negro...
Almas brancas que vão pro céu
almas negras que vão pro inferno
Deuses brancos que são beneficos
Deuses negros que são maleficos...
Anjos brancos que são "cristos"
anjos negros que são demônios.
Chega!!!
A negritude da seu grito de liberdade!
As crianças negras querem anjos da guarda negros
O povo negro quer magia negra
O povo negro quer cultura negra
Repudiamos sua prepotencia
Repudiamos sua divisão racial
Repudiamos sua aquarela racista
Queremos anjos negros
Faremos um "bem" negro
Somos um povo NEGRO !!!

sábado, 13 de junho de 2009

Mulata de exportação - Elisa Lucinda (momento fã )

“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibi, minha bela conduta
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira minha história contundida
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado...”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual...
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”
Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:

Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!

Porque deixar de ser racista, meu amor,
não é comer uma mulata!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Parem de falar mal da rotina. - Elisa Lucinda

Parem de falar mal da rotina
parem com essa sina anunciadade que tudo vai mal porque se repete.
Mentira. Bi-mentira:
não vai mal porque repete.
Parece, mas não repetenão pode repetir
É impossível!
O ser é outroo dia é outro
a hora é outra
e ninguém é tão exato.
Nem filme.
Pensando firme
nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:
chuva dia azul crepúsculo
primavera lua cheia
céu estrelado barulho do mar
O que que há?
Parem de falar mal da rotina
beijo na boca
mão nos peitinhos
água na sede
flor no jardim
colo de mãe
namoro
vaidades de banho e batom
vaidades de terno e gravata
vaidades de jeans e camiseta
pecados, paixões ,punhetas
livros cinemas gavetas
são nossos óbvios de estimação
e ninguém pra eles fala não
abraço pau buceta inverno
carinho sal caneta e querosão
nossas repetições sublimese não oprime o que é belo
e não oprime o que aquela hora chama de bom
na nossa peçana trama
na nossa ordem dramática
nosso tempo então é quando
nossa circunstância é nossa conjugação
Então vamos à lição:
gente-sujeitovida-predicadoeis a minha oração.
Subordinadas aditivas ou adversativas
aproximem-se!
é verão
é tesão!
O enredo

a gente sempre todo dia tece
o destino aí acontece:
o bem e o mal
tudo depende de mim
sujeito determinado da oração principal.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aviso da Lua que Menstrua - Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que geraessa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidade
se ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve,frita
sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga é que tô falando na "vera"conheço cada uma,
além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Ás vezes pela ponte de um
ja se alcança a "cidade secreta"a Atlântida perdida.
outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as
cai na condição de ser displicentediante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latirentão
esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...ora, não ofende.
Enaltece, elogia:comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

sábado, 30 de maio de 2009

Fabúla de Millor Fernandes

O cachorro e o trem
Imaginem que o cachorro grandão, cachorrão policial, estava descansando de um acesso de raiva exatamente junto dos trilhos da estrada de ferro.
O rabo sobre o trilho, assim. Roncando, o cachorro.
Eis que o trem se aproxima. Suspense - o trem que se aproxima é um trem de carga, vem bem lento. Tchoique, tchoique - tchoique, tchoique.
O cachorro vai ou não vai acordar? Ai, acho que não vai não! Lá vem o trem, cachorro, acorda, sai de baixo! Deus.
O cachorro não acorda, e o trem de carga, lento, fique, fique, fique, passa sadicamente em cima do rabo dele, corta-o.
Agora, sim, o cachorro acorda com um uivo de dor e, num salto de ódio, corre contra a máquina, tentando se vingar da mutilação. Resultado: o trem lhe passa em cima da cabeça e mata-o definitivamente.

MORAL Jamais perca a cabeça por causa de um rabo

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Resumo crítico: Dias de sombra, dias de luz-Jurandi Freire

Dias de sombra dias de luz, vem nos trazendo perguntas que não sabemos responder, indagações do tipo: por que um adolescente não conhece amor de pai e mãe?
“Será que somos uma aberração coletiva apelidada de nação?”.
O texto me lembra a cegueira em estamos metidos, casos como do menino João Hélio, barbaridades como não devem ser esquecidas, porém fico a pensar quantos Joãos não temos por todo esse nosso Brasil.
Todos os dias vemos nos jornais, nos noticiários, mortes, estrupos, violência, ai me pergunto onde é que vamos parar. Se somos um povo tão prospero, tão biodiversamente rico, e se nessa terra tudo que se planta dá quê que há meu pais, quê que há.
Me pergunto também de quem é a culpa?
Provavelmente desses assassinos, que sempre julgamos com nossa calejada justiça, porém será que são mesmo culpados por muitas vezes não terem outra saída. Não quero aqui defender a crueldade de ninguém, nem dizer que todos são bonzinho, porém se pararmos para pensar quantas pessoas, essas vítimas desse nosso sistema.
Quantas pessoas tem que roubar pra sua sobrevivência, concordo isso não acontece em todos os casos, porém essa nossa justiça, julga e puni bem menos os chamados bandidos de colarinho branco, nosso políticos.
Fico pensando quantas pessoas apenas um desses políticos não mata, quando rouba a verbas destinadas a crianças carentes, por exemplo, e quantos não induz a marginalidade por não ter o que comer, por não ter educação de qualidade. Ai se pensarmos em um ladrão que rouba 10,00 reais, e em outro de rouba um milhão, que é mais ladrão – se é que podemos dizer assim.
Pergunta que todos fazemos: onde esta a justiça desse país ?
Porém como sanar a injustiça brasileira se vemos nossos lideres políticos criando coisas do tipo hábeas corpus preventivo, penso que esse tipo de coisa só pode interessar a culpados, CULPADOS. É o descaso desses maus brasileiros que vem levando nosso país a esses estado de calamidade.
É isso mesmo que queremos, é isso que vamos deixar para as próximas gerações? Plagiando Elisa Lucinda – Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dá para mudar o final!

Andressa Rayana Rocha 1 b

Resumo de citação: Dias de sombra, dias de luz-Jurandi Freire

"Começo pelas sombras. O Brasil vive uma escalada da violência urbana desorientadora. Quando a lista de atrocidades parecia esgotar-se, aparece mais uma figura do medonho, do horror dos horrores, a morte do menino João Hélio."

" Conclusão: é nosso dever ético condenar e procurar mudar, por todos os meios possíveis, regimes socioeconômicos que favoreçam a formação moral de pessoas sem consciência do que seja crueldade. Caso contrário, estaremos permanentemente expostos a um terrível impasse ético."

"Como fazer deste país um país tolerante, se os líderes intelectuais, empresariais, políticos etc, comportam-se como fanáticos encastelados em seitas ideológicas."

"Eis uma das chaves da saída: um só mundo, um só povo. Com essa simples consciência, esses brasileirinhos decentes e encantadores mostram que possuem o senso de pertencimento a uma mesma comunidade de tradições."

"No mundo deles - se permitirmos - mortes de inocentes como João Hélio serão lembradas, apenas, como dias de sombras que antecedem os dias de luz."

" Sonho de bobo alegre, dirão os cínicos. Talvez. Mas - plagiando a rústica Macabéia de Clarice Lispector -, sem esse sonho, viver serve pra quê?"