sábado, 22 de agosto de 2009

Ricardo Reis - heteronimo Fernando Pessoa

Bocas Roxas




Bocas roxas de vinho,

Testas brancas sob rosas,

Nus, brancos antebraços

Deixados sobre a mesa;





Tal seja, Lídia, o quadro

Em que fiquemos, mudos,

Eternamente inscritos

Na consciência dos deuses.





Antes isto que a vida

Como os homens a vivem

Cheia da negra poeira

Que erguem das estradas.





Só os deuses socorrem

Com seu exemplo aqueles

Que nada mais pretendem

Que ir no rio das coisas.


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Carlos Drummond Andrade - Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond Andrade - As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

O bêbado e o equilibrista - Elis Regina

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...

Asas!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...

Carta do Ausente - Vinicius de Morais

Meus amigos, se durante meu recesso virem por acaso
passar a minha amada peçam silêncio geral.
Depois apontem para o infinito.
Ela deve ir como uma sonâmbula,

envolta numa aura de tristeza,
pois seus olhos só verão a minha ausência.
Ela deve estar cega de tudo o que seja o meu amor

(esse indizível amor que vive trancado em mim num cárcere mirando empós seu rastro).
Se for a tarde, comprem e desfolhem rosas à sua melancólica passagem,

e se puderem entoem cantus-primus.
Que cesse totalmente o tráfego e silencie as buzinas

de modo que se ouça longamente o ruído de seus passos.
Ah, meus amigos, ponham as mãos em prece e roguem,

não importa a que ser ou divindade por que bem haja a
minha grande amada durante o meu recesso,
pois sua vida é minha vida, sua morte a minha morte.
Sendo possível soltem pombas brancas em quantidade suficiente

para que se faça em torno a suave penumbra que lhe apraz.
Se houver por perto um hi-fi, coloquem o "Noturno em sí bemol" de Chopin.
E se porventura ela se puser a chorar,

oh recolham-lhe as lágrimas em pequenos frascos de opalina
a me serem mandados regularmente pela mala diplomática.
Meus amigos, meus irmãos (e todos os que amam a minha poesia),

se por acaso virem passar a minha amada salmodiem versos meus.
Ela estará sobre uma nuvem envolta numa aura de tristeza

o coração em luz transverberado.
Ela é aquela que eu não pensava mais possível,

nascida do meu desespero de não encontrá-la.
Ela é aquela por quem caminham as minhas pernas e para quem foram feitos os meus braços,

ela é aquela que eu amo no meu tempo e que amarei na minha eternidade -
a amada una e impretérita.
Por isso procedam com discrição mas eficiência:

que ela não sinta o seu caminho, e que este, ademais ofereça a maior segurança.
Seria sem dúvida de grande acerto não se locomovesse ela de todo,

de maneira a evitar os perigos inerentes às leis da gravidade e do momentum dos corpos,
e principalmente aquele devidos à falibilidade dos reflexos humanos.
Sim, seria extremamente preferível se mantivesse ela reclusa em andar térreo e intramuros num ambiente azul de paz e música.
Oh, que ela evite sobretudo dirigir à noite e estar sujeita aos imprevistos da loucura dos tempos.
Que ela se proteja, a minha amada contra os males terríveis desta ausência com música e equanil.
Que ela pense, agora e sempre em mim,

que longe dela ando vagando pelos jardins noturnos da paixão e da melancolia.
Que ela se defenda, a minha amiga, contra tudo que anda, voa, corre e nada;

e que se lembre que devemos nos encontrar, e para tanto é preciso que estejamos íntegros,
e acontece que os perigos são máximos,
e o amor de repente de tão grande tornou tudo frágil,
extremamente, extremamente frágil.

sábado, 1 de agosto de 2009

Elisa Lucinda - falando de poesia...Ô mulher brilhante meu deus!

A poesia se embrenhou nos meus modos viventes. Não é mais só minha matéria-prima, é minha matéria-imã, minha matéria-irmã, minha matéria-mãe. Sua maternagem é fundamentar-se em mim. Escrevo desde os 17, mas poesia no palco é imagem de infância pra mim.

23 anos de Rio de Janeiro, no desenho eu vejo seu amadrinhamento de mim, o modo requintado e muito simples com que pousou como um pássaro na janela do meu olhar e me expôs às mais duras provas sob a sua guarda. Salas de aula, bares, teatros, recitais, livros feitos em casa, livros feitos à mão, primeiro em pequena escala, mas sempre dela é que veio meu pão. Contando assim pra mim mesma, nessa noite de inverno forte em Passo Fundo, vejo como andei e ando até hoje com a poesia como protagonista mesmo sendo ela tão figurante no cenário da realidade brasileira. Mesmo com todos os avanços da comunicação a gente ainda vê o maltrato dispensado a ela, pelos livreiros, leitores, editores, como se ela não pudesse ser sala de visita pra casa de ninguém. E o pior, ela é. Na profunda realidade do cotidiano, aquela óbvia que a gente nem percebe, a poesia está. Tocando nas canções de rádio, nos provérbios populares que habitam os diálogos, nas folhinhas do calendário penduradas nas paredes descascadas, no verso de cada dia das agendas das secretárias executivas, nos oráculos, nos livros de oração, nos bilhetes dos amantes, mas poucos a vêem como um filão. Pouca gente vê que é produto de primeira necessidade e nesse percurso me vejo levando-a pela mão e sendo levada por ela ao seu ouro, que é ao mesmo tempo o seu propósito: esclarecer, educar, desabafar pelo mundo, pensar com o mundo. A poesia é um ato de compaixão, uma declaração de amor de um homem pra outro. A humanidade respira no verso do outro, no verso do irmão. Tiro por mim: como divindades feitas de puro verbo, quantos Bilacs já salvaram meu peito? Quantas vezes já rezei Adélia, Pessoa, Quintana, Bandeira, Drummond? Quantas vezes não morri porque garrei na mão de Manoel de Barros? Dormi no colo de Cecília, não me perdi por pertencer ao rebanho de Caeiro e aprendi com a angústia como uma Clarisse. É bom ter poema pra cada ocasião, é mágico como um oráculo, a mesma poesia num outro dia ganha outro sentido, por isso nunca se acaba de ler um livro de poema, é leitura infinita.

Nunca separei poesia de teatro porque sempre vi a dramaturgia dela. São milhões de identidades e emoções cujos personagens somos nós poetas e toda a humanidade que representamos e a qual damos voz. Quando dei por mim, de tanto escolher a poesia percebi que ela tinha me escolhido também, é professora de minha atriz, responsável pelos meus convites para telenovelas, cinema, teatro, empresas, escolas, festa, palestras, aniversários, casamentos, convenções. É meu pistolão para todos os trabalhos, faz lobby pra mim e eu sou empresária dela. Dou aula de como dizê-la, assim coloquial, sem maneirismos, sem chatices, sem castigar os sentidos dos seus versos, daí há dez anos nasceu a minha escola de poesia que recebe o ano inteiro gente de toda profissão e idade, que quer falar poesia socialmente, ou profissionalmente. Agora, alunos já viraram professores e já somos uma equipe ensinando professores de escola pública o nosso jeito de transformar poesia em aula, agora estamos no Espírito Santo, minha terra natal.

Desde menina então, sob as ordens dessa deliciosa criatura venho cavalgando o mundo, como uma criança que carrega água na peneira e com a alegria da brincadeira vai regando a terra. De cada porta de teatro faço uma livraria, em cada auditório de empresa esta lá a minha banca, minha tenda de nobre camelô, mesmo que não se veja a banca ali, mesmo quando fisicamente ela não pode estar, está feito o serviço pela poesia, está vendido o livro, para que a palavra ande é preciso pregar a palavra, a isso a poesia nos convoca.
Outro dia eu vi um vizinho de filme dizendo assim pra mulher “Você pensa o quê? Eu trabalho, minha vida não é poesia não”. E eu pensei falando sozinha com a tela da TV, durante a sessão da tarde, pois a minha é.